Perfil DeMolay: Marcelo Dantas – Capítulo Manaós nº 647

Publicado em 30/04/2017 | Categorias: Institucionais, SCODB | Publicado por: 44297

Marcelo Augusto Dantas de Araujo é um membro da Ordem DeMolay com origens indígenas, do Capítulo Manaós nº 647. Ele conta pra gente um pouco sobre suas experiências.

Nascido em fevereiro de 1999, no município de São Gabriel da Cachoeira, que fica a 852 km de Manaus, Marcelo está com 18 anos e reside na capital, com os avós maternos, por conta dos estudos, pois deseja cursar Medicina na universidade. Por parte de pai, ele descende das etnias Tariano e Pira-Tapuya. “Tem uma diversidade muito grande de origens na minha família. Aqui é muito assim”, revela.

São Gabriel da Cachoeira é um município que conta com pouco mais de 40 mil habitantes, situado na região conhecida como “Cabeça do Cachorro”, no alto Rio Negro, onde o Brasil faz divisa com a Colômbia. É o município com a maior concentração de indígenas do país, 9 a cada 10 pessoas. Uma região muito estratégica em aspectos militares, por conta da fronteira, e também pelas riquezas minerais encontradas ali, que motivaram migrações de brasileiros de outras regiões, aumentando a miscigenação.

O avô materno de Marcelo era militar, e foi destacado, vindo da região Nordeste, para servir em São Gabriel, coisa que aconteceu também com seu avô paterno, que praticava a mesma profissão. Eventualmente, fixaram residência no Amazonas. E foi nesse ambiente rico em culturas que nosso irmão cresceu: “Cada etnia possui suas crenças e superstições, o que me fez ser uma pessoa bem eclética. Já conheci muitas pessoas, muitas gastronomias variadas, e tudo isso me influencia muito bem na adaptação ao mundo. E até mesmo na Ordem, onde conheço pessoas de variadas origens e religiões. Por conta disso, me considero uma pessoa sem preconceito, sempre disposto a conhecer novos modos de ver o mundo”, explica ele.

O pai de Marcelo, que se chama Evaldo Araujo, é coordenador da Funai (Fundação Nacional do Índio), e parte de seu trabalho envolve visitar comunidades indígenas de vários povos, situadas dentro da área de São Gabriel. Marcelo nos contou como foi uma destas viagens, na qual ele foi junto: “Viajei com o meu pai pra três comunidades: Taracuá, Pari-Cachoeira e Iauareté. Pra chegar lá é muito difícil. Fomos de voadeira, que é uma espécie de lancha. Tem também canoas com motor de popa, que o pessoal usa pra se locomover. Uma parte da viagem não dá pra prosseguir pelo rio, porque só há cachoeiras. Então é preciso colocar a lancha num caminhão, pra podermos continuar em outro trecho mais adiante. Mas no dia que fomos, esse caminhão estava quebrado, e tivemos que carregar a lancha no braço através das pedras da cachoeira!”. A comunidade Iauareté, onde o pai de Marcelo nasceu, fica separada da Colômbia pelas águas do rio. É um povoado de pouco mais de 3 mil habitantes, e seu nome significa “cachoeira das onças”.

“Não visitamos só estas três, eram dezenas de aldeias, só que muito pequenas. Em todos esses lugares, fomos muito bem recebidos, sobretudo quanto à comida! Xibé, peixe assado em telhas, açaí puro.”, conta Marcelo, a respeito da expedição. O xibé é uma bebida muito tomada nas comunidades indígenas, feita de água e farinha de mandioca. Já o açaí, que ficou muito popular por todo o Brasil, por lá é consumido sem a adição de açucar ou xaropes, apresentando um gosto mais forte. “Também há a quinhapira, uma espécie de sopa de peixe que leva tucupi, pimenta e até formigas, e se come com beiju, que é parecido com a tapioca. Em São Gabriel essas comidas fazem parte do dia-a-dia. Tem também as bebidas. O vinho de buriti, que é até gostoso, e caxiri, um fermentado de macaxeira (mandioca), que você toma e fica muito doido, mas eu nunca experimentei!”, afirma o nosso irmão.

Nas comunidades indígenas, é possivel encontrar muitos costumes, mitologias, com os moradores mais antigos. “Na praia de São Gabriel tem um espécie de lago, que nunca seca. Dizem que lá mora uma cobra gigante. E muita gente que tentou nadar ou mergulhar ali, desapareceu. Mas não são apenas histórias, tem alguns costumes que influenciam na vida cotidiana, também. Uma vez eu tive catapora, e a minha avó triturou folhas de manga e fez um emplastro, para aplicar nas feridas, e de fato eu melhorei rápido!”

A mãe de Marcelo, Laura Dantas, trabalha na Secretaria de Saúde, sendo responsável pela coordenação de saúde da mulher. “Quando criança, viajei com ela para a comunidade Taracuá, e convivi com as pessoas de etnia pura. Brincava com as crianças no meio do mato, à noite, sem luz elétrica alguma”, relembra. “Mas não são aldeias como nos filmes, casas de palha, não. Tem eletricidade vinda de geradores ou mini usinas. Tem centros comunitários, quadras, escolas. A diferença é que, por ser ermo, é difícil de chegar as coisas, quando faltam. Mas também há áreas virgens, onde os índios andam nus e moram em ocas, só que ficam muito inacessíveis, e eu nunca fui até lá”. Nas comunidades indígenas, a maioria das pessoas vivem de culturas agrícolas de subsistência, cultivando alimentos variados, como o açaí e a mandioca, que é a base da maior parte da alimentação local. Além de vegetais e frutas, a pesca também é muito presente. Cada comunidade tem um centro comunitário, onde a população se reúne para eventos e reuniões. Algumas possuem até aeroporto, em função da dificuldade de acesso por terra ou rio.

Indicado ao Capítulo Manaós em 2015, pelo irmão Victor Araujo, Marcelo também possui um nome indígena, registrado em seu RANI (Registro Administrativo de Nascimento Indígena), documento oficial emitido pelo Governo Federal, através da Funai. É “Hui”, nome advindo do idioma Tariano, que tem o significado de um título dado aos antigos líderes da tribos dessa etnia. E com certeza foi muito bem escolhido para este jovem líder, que prossegue trabalhando pelo seu próprio aperfeiçoamento, e pela preservação das diversidades culturais de nosso país, nos melhores moldes que nossa Ordem poderia almejar.