O verdadeiro Protetor do Ilustre Rito da Cavalaria DeMolay Mundial

Publicado em 28/05/2015 e alterado em 28/06/2015 | Categorias: SCODB | Publicado por: 78857

Para ser grande, sê inteiro, disse Fernando Pessoa. Todo DeMolay tem um impulso de grandeza, e traduzo isso como essa tentativa que bem captou o maior poeta de língua portuguesa, para que sejamos bons filhos, bons maridos, bons amigos, bons profissionais, bons companheiros, bons cidadãos, nunca sendo indignos aos olhos dos homens de bem.

Com base nessa aspiração a ser inteiro e nesse impulso de grandeza, em 2004, e, ainda, em meio a um turbilhão de incertezas, um grupo de irmãos houve por bem incorporar os graus do chamado Ilustre Rito da Cavalaria de Ohio (da sigla em inglês, IKRO) ao Supremo Conselho da Ordem DeMolay para o Brasil.

Tudo começou graças ao empenho do irmão Marcelo Brito, sempre ávido por descobrir a história da Ordem DeMolay e incrementar os estudos entre os DeMolays brasileiros, que descobriu, em meio a uma série de e-mails em uma das antigas listas de discussão mundo afora, a existência de antigos graus da Cavalaria em nossa Ordem.

Ganhando a confiança de Pat King, portador dos antigos rituais, cujo grau de proteção demonstra seu amor desmedido pela Ordem, pouco a pouco, o irmão Marcelo foi recebendo os exemplares.

Em 2004, o irmão Marcelo, então presidente da Comissão Nacional de Ritual, Liturgia e Joias, revela-nos o desejo de incorporar os graus no Brasil.

Tive a satisfação de integrar este grupo e posso afiançar que sem o rigor analítico de Marcelo Brito, o conhecimento ritualístico e a capacidade estilística de Eder Manccini, a acuidade linguística no idioma inglês do Gerson Ziebarth Camargo, a dedicação de KarloVettorazzi e Rodrigo Arellano, todos membros da Comissão, esse sonho não teria se transformado realidade.

Ao longo do tempo, a amizade inicial entre Pat King e Marcelo Brito, algo natural e espontâneo que sempre surge entre verdadeiros irmãos de armas, passou a ser compartilhada com toda a comunidade DeMolay do SCODB, graças às vindas dele ao Brasil, quando conhecíamos um homem afável, extremamente generoso com os DeMolays e acessível a todos, independentemente de grau ou tempo de Ordem.

Foi-se percebendo toda a fraternidade daquele homem, responsável há mais de quarenta anos por boa parte dos graus que integram o sistema do ilustre rito. Uma injustiça nos incomodava, porém: Pat nunca recebera o grau de Cavaleiro do Manto Prateado, um grau-honraria que serve para reconhecer o valor daqueles que muito se dedicaram para as missões da cavalaria DeMolay.

Assim, no dia 23 de maio de 2015, em Juiz de Fora, durante a realização do ENAC, sentimos, todos os Cavaleiros brasileiros, que corrigíamos um erro histórico.

Como podia Pat King nunca ter recebido o grau de Cavaleiro do Manto Prateado? Ele que, de fato, já portava o “lambrequim argente” e era o “verdadeiro chefe da nossa casa”, Mestre da Nobreza e Protetor de nossa Ordem, poderia ficar sem o devido reconhecimento, ainda mais de seus pares brasileiros, que receberam dele o maior voto de confiança possível, ao serem autorizados a praticar os graus, formalmente, na estrutura do SCODB?

Assim, ele, que não via o grau há 40 anos, mal sabia que essa oportunidade não só se repetiria, como seria ele investido e receberia todos os paramentos desse lindo grau que, em cerimônia pública, relembra ao Cavaleiro os ensinamentos de toda a Ordem DeMolay.

Desnecessário lembrar que, embora não tenha sido Pat King o criador de todos os graus do rito da Cavalaria, ao ter escrito os rituais dos graus de Cavaleiro da Capela, Cavaleiro da Cruz de Salém, Cavaleiro da Cadência, Comendador e Grã-Cruz, ele complementou e deu coerência ao Ilustre Rito da Cavalaria de Ohio (IKRO), concebido pelo maçom J. William Kutschbach, Diretor da Cavalaria de Ohio em 1972. Frise-se, ainda, que o grau de Cavaleiro do Manto Prateado surgiu em 1974.

De qualquer forma, Pat, por seu relevante trabalho para dar coerência e lógica interna aos graus do ilustre rito da Cavalaria, merecia-o há muito tempo.

Já sendo membro-honorário do SCODB e tendo recebido sua CID vitalícia no mesmo dia 23 de maio, pelas mãos do Grande Mestre Nacional, Irmão Rodrigo Cardoso, definira-se que o erro histórico deveria ser corrigido.

Sendo assim, no tradicional banquete de que participam os membros do Ilustre Rito da Cavalaria brasileira, uma Real Convocação teve ocorrência, integrada pelos Cavaleiros abaixo listados, que fizeram parte da nominata histórica:

Real Ilustre Comendador Cavaleio:  Sir Marcelo Brito, Cavaleiro do Manto Prateado

Real Comendador Escudeiro:           Sir Rodrigo Cardoso, Cavaleiro do Manto Prateado

Real Comendador Pajem:                 Sir Daniel Giotti, Cavaleiro do Manto Prateado

Real Protocolista:                              Sir Fábio Okamoto, Grã-Cruz da Cavalaria

Real 1º Diácono:                               Sir André Sarkis, Grã-Cruz da Cavalaria

Real 2º Diácono:                                Sir Victor Pessamglio, Cavaleiro da Cadência

Real Pior:                                              Sir Caio César, Cavaleiro da Cadência

Real Preceptor:                                    Sir André Chormiak, Grã-Cruz da Cavalaria,

Real Sacristão:                                  Sir Hamilton Reis, Grã-Cruz da Cavalaria

Real Porta Estandarte:                      Sir Bruno Anderson, Comendador da Cavalaria

Real Sentinela:                                  Sir Rafael Xavier, Grã-Cruz da Cavalaria

Arauto:                                               Sir Maurício Zambotto, Grã-Cruz da Cavalaria

Com zelo ritualístico, sobretudo pelos queridos Cavaleiros portadores dos graus de Cavaleiro da Cadência, Comendador da Cavalaria e Grã-Cruz da Cavalaria, que muito honraram os três Cavaleiros do Manto Prateado presentes, demos vazão a um sentimento de toda a Cavalaria brasileira, que, no momento em que o Arauto leu o nome de um dos agraciados – o irmão Ilan Kelson também recebeu o grau -, não se contiveram gritando “Pat, Pat, Pat”, numa autêntica prova de que a fraternidade DeMolay vai além da idade e das fronteiras geográficas.

Este entusiasmo que Pat desperta em todos a sua volta, fruto, com certeza, de seus profundos laços religiosos, coincide com a descrição perfeita de Octavio Paz, em um poema intitulado “Irmandade”, no qual mostra a brevidade da vida e nossa ligação a outros seres humanos e ao Pai Celestial:

“Sou homem: duro pouco

E é enorme a noite.

Mas olho para cima:

As estrelas escrevem.

Sem entender, compreendo:

Também fui escrito

E neste mesmo instante

Alguém me soletra.”

No verdadeiro ágape que presenciamos, compreendemos como as coisas importantes são imateriais, pois nenhum bem material pagaria a satisfação de ver todos os Cavaleiros à volta, acompanhando atentos à cerimônia e a emoção do irmão Pat King, cujos olhos marejados não se escondiam por detrás de seus óculos.

Verdadeiro cavaleiro que é, Pat mostrou humildade, sendo guiado por seus irmãos mais novos, com ironia fina dizendo que estaria velho para receber o grau, quando ajoelhava, mas nesse ato simbólico fortalecendo a fé de centenas de cavaleiros presentes, e dos milhares de cavaleiros ausentes, sobre os valores de um Nobre Cavaleiro da Ordem Sagrada dos Soldados Companheiros de Jacques De Molay.

Revelo aqui minha emoção, compartilhada por todos, mas creio sobretudo com o irmão Marcelo Brito, em conferir o grau aquele generoso homem de fala serena, olhar circunspecto e inteligência afiada.

Estávamos sem o ritual original em inglês e tive a ideia de tentar traduzir um pouco do que o RICC falava e, a partir daquela miscelânea de frases soltas que eu dizia, Pat ia recordando quase totalmente de todo o juramento.

A verdade é que pedir um voto de amor e fidelidade à Cavalaria para quem tanto a defendeu, sobretudo os ideais do IRKO, é algo meramente formal de nossa parte. Pat já sabe de cor, no sentido mesmo da expressão, por seu coração humilde e caridoso, todas as lições dos graus da Cavalaria, que sempre os emocionou em suas vindas ao Brasil.

Ele exprime uma das verdades da mensagem do grau: a de ser um dos Cavaleiros que mais honrou a humildade e caridade, dividas esperadas de um jovem Pajem, às quais devem se somar outras virtudes e a procura da honra e da justiça em todos os caminhos da vida. Por esse fato, ele sempre deverá orientar um ICC, quando presente em uma convocação, em assento de honra, à esquerda … E não existe ninguém mais preparado para tal honra.

Pat afirmou que todos fizeram bem o ritual, mas não tem ideia de que, mesmo se tivéssemos atingido o maior desempenho ritualístico, estaríamos ainda em débito por sua contribuição à Ordem DeMolay.

Nosso querido irmão norte-americano merece ser colocado no panteão dos grandes nomes da Ordem DeMolay mundial, ao lado do Tio Frank Sherman Land, Tio Frank Arthur Marshall, irmão Louis Gordon Lower e demais DeMolays fundadores, irmão Herbert Ewing Duncan, autor do livro “Hi, Dad”, Tios Michael Senders e Ed Trefts, responsáveis pela Ordem dos Escudeiros da Távola Redonda e do próprio Tio William Kutschbach.

O jovem missionário de Saint Louis que tocou a tantos corações e criou a maior ordem juvenil masculina do mundo deixou importante bastão, que sem a pretensão de substituir nosso fundador, vez por outra, encontra alguém digno de portá-lo e prosseguir com seu legado. Quem viu e conviveu com Pat King nos dias 22, 23 e 24 de maio, sabe que ele é um desses pouquíssimos irmãos.

Se um dia ficou marcado na história da Ordem o “Hi, Dad”, hoje deixamos marcado um “Thank you for all, dear Brethern Pat”.

Por Daniel Giotti, Cavaleiro do Manto Prateado, ex-membro da Comissão de Ritual, Liturgia e Joias e ex-ICC do Convento Príncipes do Real Segredo. Esse texto que integrará o livro “Fundamentos históricos, simbólicos e filosóficos do Ilustre Rito da Cavalaria DeMolay” de autoria do Ir. Daniel Giotti.